Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

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O Domingo de Ramos é o grande portal de entrada na Semana Santa, a semana em que o Senhor Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. É uma subida que não finda no trono dos poderosos. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da cruz, o trono donde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da redenção. Este caminho salvífico, ilustrado na celebração litúrgica através dos dois Evangelhos proclamados (Mt 21,1-11, antes da procissão, presentificando a entrada de Jesus em Jerusalém e no Evangelho de Mateus 26,14-27.66, na Liturgia da Palavra, recordando a Paixão do Senhor), gera uma questão importante: a partir do paradoxo gerado entre o júbilo e a fúria, qual o olhar que temos de Jesus? Quem é Jesus?

O Messias entra triunfante em Jerusalém, montado num jumentinho, cumprindo a profecia (cf. Zc 9,9), em meio aos cânticos messiânicos entoados pelo povo que o reconhecia como tal, por causa dos grandes sinais realizados. Cheios de alegria, louvam e homenageiam a Jesus. Os fariseus até tentam sufocar suas manifestações de fé, mas o Senhor as permite dizendo que “se estes se calarem, clamarão as pedras” (Lc 19,39). É uma entrada triunfal, mas não duradoura. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, poucos dias mais tarde, num grito furioso: “Crucifica-o!”. É um tremendo paradoxo. São Bernardo exemplifica bem esta contraposição:

 

“Como eram diferentes umas vozes e outras: “Fora! Fora! Crucifica-o!” e “Bendito o que vem em nome do Senhor, hosana nas alturas”. Como são diferentes as vozes que agora o aclamam “Rei de Israel” e dentro de poucos dias dirão: “Não temos outro rei além de César”. Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobre elas”. (São Bernardo, Sermão no Domingo de Ramos).

 

Paradoxo? Contradição? Acolhida e rejeição? São atitudes que de alguma forma nos denunciam, pois em um primeiro momento, o entusiasmo apodera-se de nós e fazemos como os discípulos e aquele povo: reconhecemos quem é Jesus; Ele é o esperado; Ele é aquele que nos traz a paz; é o filho bendito de Deus; Deus visitou o seu povo. E todos permanecemos lá com Ele, numa crescente expectativa da ação que realizará quando entrar na sua cidade. Mas quando o Cristo começa a fazer e a exigir com seu testemunho algo que quebra com os nossos esquemas, aí ficamos desapontados. Como explicou o Papa Bento XVI:

 

“Não foi por acaso que a multidão em Jerusalém, poucos dias depois, em vez de aclamar Jesus, grita para Pilatos: “Crucifica-O!”, enquanto os próprios discípulos e os outros que O tinham visto e ouvido ficam mudos e confusos. Na realidade, a maioria ficara desapontada com o modo escolhido por Jesus para Se apresentar como Messias e Rei de Israel. É precisamente aqui que se situa o ponto fulcral da festa de hoje, mesmo para nós. Para nós, quem é Jesus de Nazaré? Que ideia temos do Messias, que ideia temos de Deus? Esta é uma questão crucial, que não podemos evitar, até porque, precisamente nesta semana, somos chamados a seguir o nosso Rei que escolhe a cruz como trono; somos chamados a seguir um Messias que não nos garante uma felicidade terrena fácil, mas a felicidade do céu, a bem-aventurança de Deus. Por isso devemos perguntar-nos: Quais são as nossas reais expectativas? Quais são os desejos mais profundos que nos animaram a vir aqui, hoje, celebrar o Domingo de Ramos e iniciar a Semana Santa?” (Papa Bento XVI, Homilia de Domingo de Ramos de 2012).

 

O Papa Emérito nos direciona à pergunta do início do texto: Quem é Jesus? Ele próprio nos pergunta no Evangelho de Mateus  16,15: “E vós quem dizeis que eu sou?”. Será que ficamos desapontados, como os todos os seguidores de Jesus relembrados hoje, com a realidade da Cruz, do sofrimento, da morte? Desapontados também por perceber que nós como cristãos não teremos vida fácil? Estamos em uma busca de Deus ou em busca de soluções rápidas para as dificuldades da vida? Aqueles que o aclamavam Rei, fugiram ou assistiram sua morte; faremos o mesmo? Somos hoje contemporâneos do Senhor. A Semana Santa é sempre atual. Por isso, mesmo que diante desse confronto sejamos infiéis, o Senhor permanece fiel, como afirma São João Paulo II:

 

“A narração da Paixão põe em relevo a fidelidade de Cristo, em contraste com a infidelidade humana. No momento da prova, enquanto todos, também os discípulos e até Pedro, abandonam Jesus (cf. Mt 26, 56), Ele permanece fiel, disposto a derramar o sangue para cumprir plenamente a missão que o Pai lhe confiou.” (São João Paulo II, Homilia de Domingo de Ramos de 2002).

 

Jesus é o único capaz de corresponder plenamente ao amor do Pai. É nosso consolo, salvação e exemplo. Exemplar na humildade e na oferta intercessora. É um rei diferente. Monta um jumentinho, não tem uma corte, nem está rodeado de um exército como símbolo de força. Quem O acolhe são pessoas humildes, simples. Jesus não entra na Cidade Santa, para receber as honras reservadas aos reis terrenos, a quem tem poder, a quem domina; entra para ser flagelado, insultado e ultrajado, como preanuncia Isaías na Primeira Leitura (cf. Is 50, 6); entra para receber uma coroa de espinhos, uma cana, um manto de púrpura; entra para subir ao Calvário carregado com um madeiro. Jesus entra em Jerusalém para morrer na Cruz. E é precisamente aqui que refulge o seu ser Rei segundo Deus: o seu trono real é o madeiro da Cruz! É com a cruz que todos os males são vencidos. É da cruz que brota a verdadeira fonte da paz e da alegria! É assim que expressa o Papa Francisco:

 

“Foi com a cruz que venceu o mal! Não devemos crer naquilo que o Maligno nos diz: não podes fazer nada contra a violência, a corrupção, a injustiça, contra os teus pecados! Não devemos jamais habituar-nos ao mal! Com Cristo, podemos transformar-nos a nós mesmos e ao mundo. Devemos levar a vitória da Cruz de Cristo a todos e por toda a parte; levar este amor grande de Deus. Isto requer de todos nós que não tenhamos medo de sair de nós mesmos, de ir ao encontro dos outros. Na Segunda Leitura, São Paulo diz-nos que Jesus Se despojou de Si próprio, assumindo a nossa condição, e veio ao nosso encontro (cf. Fl 2, 7). Aprendamos a olhar não só para o alto, para Deus, mas também para baixo, para os outros, para os últimos. E não devemos ter medo do sacrifício. Pensai numa mãe ou num pai: quantos sacrifícios! Mas porque os fazem? Por amor! E como os enfrentam? Com alegria, porque são feitos pelas pessoas que amam. Abraçada com amor, a cruz de Cristo não leva à tristeza, mas à alegria.” (Papa Francisco, Homilia de Domingo de Ramos de 2013).

 

Primeiramente, não temos uma compreensão plena de quem é Jesus, pois suas atitudes, ensinamentos e testemunho nos confrontam; e o negamos, fugimos e não queremos mudar nossas atitudes. Jesus sabe como é o nosso coração. Por isso, assumiu nossas fraquezas todas para que nenhum peso fosse capaz de nos impedir de ir até Ele, e com Ele ir ao Pai. Que nesta Semana Santa, em vez de lançar aos pés do Senhor os ramos, sejamos nós mesmos estes ramos. Prostremo-nos nós mesmos aos pés de Cristo, em adoração pela instituição da Santa Eucaristia, em adoração à Santa Cruz, em adoração à sua Páscoa que nos salva e nos eleva. Somos ramos lançados aos pés do Senhor, mas somos ramos que permanecem na videira que é Jesus. Que a passagem de João 15,4-5 norteiem nosso caminho nesta Grande Semana:

 

“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.”

 

Que a Virgem das Dores possa nos acompanhar até a realização do Mistério Pascal, o maior mistério de Deus em nossas vidas, a nossa salvação pela Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Thaisson da Silva Santarém

Coordenador Distrital do Ministério para Seminaristas – RCC-DF

 

 

 


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