Reconstruindo muralhas

James Apolinário

Coordenador Estadual da RCC do Ceará

“Unidos pela Tua Palavra, reconstruiremos as muralhas” foi a palavra de ordem para o ENF 2010! A Palavra de Deus sempre foi e sempre será o centro e a vida da Igreja. Hoje o mundo fala na convergência de tecnologia, isto é, uma forte tendência que há na comunicação do mundo vir a ter um único meio de transmissão ou uma única infraestrutura.

O Evangelho é fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes nos lembra o Concílio do Vaticano II na “Dei Verbum”, por isso a nossa convergência é a Palavra de Deus, pois todos os aspectos da vida humana são contemplados na Sua Palavra. A palavra divina está também na raiz da história humana. (Mensagem da XII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre o tema A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, publicada em 01/11/2008). Quando o mundo movido pela era da informação despertar para essa verdade, já revelada antes mesmo do surgimento dos meios modernos de comunicação, ele compreenderá que Jesus Cristo é o Senhor. Nisso veremos que todo aquele que vem a Jesus e ouve suas palavras e as pratica é semelhante a quem constrói a sua vida sobre a rocha (Lc 6, 47s) pois Deus é inovador na sua forma de amar o mundo, já que nos deixou o que é para nós a rocha onde edificaremos nossas moradas: sua Palavra de Vida.


“Reconstruiremos as muralhas!”

“Unidos pela Tua Palavra, reconstruiremos as muralhas”. Essa motivação vem das palavras de Neemias quando anuncia ao povo que o rei permite a reconstrução das muralhas de Jerusalém e em resposta, o povo dá um brado: Vamos! Reconstruamos! (Ne 2, 18b). Esse mesmo Neemias, que foi copeiro do rei em Susã, pôde ver que as muralhas de Jerusalém foram derrubadas, os portões consumidos pelo fogo e que os pagãos tinham atravessado livremente a cidade santa e profanado seus templos e locais sagrados, deixando a marca da destruição. Isto é, sem dúvida, prelúdio do que o pecado faz em nossas vidas, destrói tudo que está de pé.

Com tudo isso, o coração de Neemias ficou oprimido e então ele jejuou e orou poderosamente. Alguns meses depois, em resposta às suas súplicas, o rei Artaxerxes deu-lhe uma licença para ir a Jerusalém e reconstruir as muralhas. Este ato prefigura a dignidade e identidade de um povo redimido pela misericórdia divina.

É valido ressaltar alguns pontos na atitude de Neemias que o qualificam como um grande líder e como um grande homem de Deus: a oração, o jejum, as qualidades de liderança, a poderosa eloquência, as habilidades organizacionais, a confiança nos planos de Deus e a rápida e decisiva resposta aos problemas são algumas dessas qualidades.

Dentre outras qualidades, a primeira que destaco é a ousadia em pedir e iniciar a reconstrução, pois quando começou a reconstruir as muralhas, deparou-se com uma grande oposição do povo da região. E os líderes dessa oposição foram Sambalate, o horonita, Tobias, o amonita, e Gesher, o árabe, que por meio de ofensas e escárnios, ridicularizaram seus esforços e o acusaram de rebelião contra o rei (Ne 2, 19-20). Tentaram minar de todas as formas sua resiliência e a sua fé. Tantos podem e vão dizer sobre nós: É vã a sua missão! Você não conseguirá! Para que ficar dando a vida por isso ou por aquilo! O mundo nos opõe depreciando nossa ação de todas as formas e níveis.

 “Tomai, enfim, o capacete da salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus.” (Ef 6, 17) essa expressão de Paulo descreve bem o vigor de Neemias, nesse momento de seguir decididamente no seu objetivo unido à Palavra de Deus, mesmo quando os líderes opositores contratando adversários para impedir a reconstrução, o que o obrigou a levar metade dos trabalhadores a se armar e ir para a batalha (Ne 4, 7-8.16).  Neemias não se abateu e o mais importante foi que ele não deixou transparecer um espírito de sacrifício e de luta. Seu único interesse é resumido na sua repetida oração: “Lembrai-vos, ó meu Deus, de tudo o que eu fiz por este povo, e recompensai-me!” (Ne 5, 19).

Sem dúvida não é fácil a reconstrução de uma consciência secularizada e arraigada no relativismo, quantas muralhas ainda devemos reconstruir para fechar brechas de abismos entre o homem e seu Senhor, mas devemos manter o pensamento de Cristo para a transformação do mundo como meta de vida. Os servos que se dispuserem a colocar a mão na obra de reconstrução, e que terão parte na instauração do Reino de Deus, deverão ser tratados como guerreiros. Assim soarão para nós as palavras de Jeremias: Proclamai isto entre as nações: Declarai a guerra! Chamai os valentes! Aproximem-se, subam todos os guerreiros! (Jl 4, 9). Neemias é guerreiro no seu propósito.

Destacaria, ainda, uma das suas armas: a sua oração. Pois Neemias, antes de sujeitar-se a pedir ao rei o direito de reconstruir as muralhas, orou e, de forma piedosa, jejuou. Não tenho muito tempo de Movimento, vou completar 13 anos. Mas lembro muito quando diante de muitas provas o jejum nos ensinou a mergulhar na presença de Deus e pôr nossa confiança em sua vontade, submetendo-nos a aceitar Seus desígnios com convicta determinação. Muitos frutos foram alcançados diante dessa prática de piedade e mortificação. Somado à oração, como nos diz o Catecismo da Igreja nos parágrafos 1434 a 1439, são duas armas eficazes e poderosas diante das dificuldades e perseguições. Neemias não só conseguiu a autorização para ir e construir, como também cartas e suprimentos de materiais por sua conduta segura. Isso prova que poder e efeito tem o jejum e oração!

Assim como é devastadora a ação do pecado na humanidade, com suas mentiras e seduções, o paganismo no tempo da reconstrução foi uma das causas que fragilizou a religião e a fé do povo e, por conseqüência, suas rupturas. Pois na medida em que as muralhas foram sendo construídas, Neemias se deparava com a corrupção dos judeus em Jerusalém. Eles trapaceavam uns contra os outros, tomando-os como escravos (Ne 5, 1-13). Essas influências não foram determinantes na vida e na missão de Neemias que, superando-as, construiu as muralhas e governou Judá por 12 anos (Ne 5, 14; 13, 6).

Unidos pela Tua Palavra, a RCC reconstruirá suas muralhas!

“Todo aquele que vem a mim ouve as minhas palavras e as pratica, eu vos mostrarei a quem é semelhante. É semelhante ao homem que, edificando uma casa, cavou bem fundo e pôs os alicerces sobre a rocha. As águas transbordaram, precipitaram-se as torrentes contra aquela casa e não a puderam abalar, porque ela estava bem construída” (Lc 6, 47s).
A Renovação Carismática Católica tem seus fundamentos alicerçados na rocha que é Cristo, em seus projetos vem buscando reconstruir as muralhas destruídas pela marginalização e descasos da sociedade. Projetos como a Missão Marajó e o fortalecimento dos Grupos de Oração são formas de reerguer as muralhas da dignidade na família e na sociedade, favorecendo a libertação de vícios e a formação da justiça social a partir das bases. Pois, tomando emprestadas as palavras de Paulo: Não somos como muitos outros falsificadores da Palavra de Deus. Mas é na sua integridade, tal como procede de Deus, que nós a pregamos, vivemos, servimos em Cristo, sob os olhares de Deus! (II Cor 2, 17).

Há ainda outros projetos como o “Eu amo a RCC!” e “Celebrando Pentecostes” que tem dois princípios: Ação e a Oração. Em sua carta, São Tiago vai nos dizer que sem as obras a nossa fé não teria vida em si mesma (Tg 2, 18). Aprendemos com Neemias que o próprio Deus do céu é quem nos fará triunfar. Nós somos seus servos, e vamos reconstruir (Ne 2, 20a). A construção da Sede Nacional, em Canas/SP, será a prova de um Deus que realizará em seu tempo todas as coisas. Ele, mais do que nossa oração, precisará de nossa ação. Jesus nos mostra a direção quando diz: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus.” (Jo 15, 13).

"No nosso tempo, ávido de esperança, fazei com que o Espírito Santo seja conhecido e amado. Assim, ajudareis a fazer que tome forma aquela ‘Cultura de Pentecostes’, a única que pode fecundar a civilização do amor e da convivência entre os povos. Com insistência fervorosa, não vos canseis de invocar: ‘Vem, ó Espírito Santo! Vem! Vem!’" (João Paulo II).

Acredito que essas palavras do nosso amado Santo Padre o Papa João Paulo II, não foi apenas escrita em papéis, mas na vida e na missão da Renovação Carismática Católica do Brasil (RCC), fundada na missão do Movimento, cujo princípio de sua espiritualidade é o Batismo no Espírito Santo. Faz parte da identidade da RCC, a missão de construir uma sociedade alicerçada no mover do Espírito Santo, pois ele é o protagonista da missão da Igreja (Rm 21). Esse esforço visa antecipar a vinda gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, assumindo, assim, a função de João Batista em nossos tempos. O objetivo desta missão é livrar definitivamente a humanidade, decaída pelo pecado, por meio da sua ação evangelizadora, por seus projetos e por suas missões “ad gentes”, “ad-intra”, “ad-extra”.

Dar a vida! Deixo aqui um testemunho: Não sei se teria vida se não fosse a RCC, por ter podido encontrar uma vida nova em Cristo Jesus pela experiência que tive de batismo no Espírito Santo. Por isso, só me resta consagrá-la nesse Movimento. Assim como Ana (I Sm 1, 22), ao conseguir a graça de conceber e dar a luz ao filho, ela não hesitou em entregá-lo ao serviço do Senhor. Eu também digo que não há melhor forma de gratidão do que dar aquilo que me foi devolvido: A VIDA. Ofereço a Deus por meio da RCC, que é a primavera para a Igreja! “Quando tocar a trombeta, de qualquer canto em que vós a escutardes, reuni-vos a nós. Nosso Deus combaterá por vós” (Cf. Ne 4, 14).

MARCHEMOS!
 


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