Ano da Fé... Mas o que é mesmo a Fé?

altPe. Alexsander Cordeiro Lopes
Mestre em Teologia pela PUC/PR
Diretor Espiritual do Ministério Jovem

Escrevo este breve artigo no domingo das eleições municipais em nosso país. Não, caro leitor... Não falarei de política, mas de algo que ouvi em um importante meio de comunicação. Explico-me: em uma determinada comunidade católica, ocorreu um crime eleitoral de boca de urna. Evidentemente sou totalmente contra este tipo de atitude. E os que a noticiavam em uma importante emissora de rádio de nosso país também o eram. Nisso nós concordamos. Impressionou-me, porém, o depoimento de um dos entrevistados: “Vou à missa pra viver a minha fé e nela encontrar paz e sossego”.

Esta frase me incomodou. Doeu nos ouvidos... E não por causa da situação inusitada na qual ela foi pronunciada, mas porque esta pessoa, os radialistas e a maioria dos que criticavam a “boca de urna” interpretavam a manifestação de fé em uma Igreja como “momento” para sentir “paz e sossego”, longe dos acontecimentos que nos rodeiam. E quantas pessoas compreendem assim a sua manifestação religiosa...
Coincidentemente, no mesmo dia, assisti a um documentário produzido por uma importante emissora da TV dos EUA que evidenciava o embate entre a fé cristã e as descobertas científicas. Muito interessante, por sinal! Porém, os que debatiam faziam-no comparando a fé a um conhecimento humano racional – como que um conjunto de afirmações que pudessem ser comprovadas por experimentação, utilizando-se do método científico.

Compreendi nesse instante porque o Santo Padre, o papa Bento XVI, proclamou o Ano da Fé para comemorar os 50 anos do Concílio Vaticano II... “Algo precisa ser mudado!”

Não é incomum percebermos pessoas que acreditam que ter fé é ter um “refúgio seguro” para descansar, como se fosse um sentimento de sossego ou quietude aos moldes do Zen Budismo. Ou mesmo há os que desejam que sua fé os conduza a emoções fortes, grandes êxtases espirituais. Há ainda os que transformam a fé em um ato político em contraste com outros atos políticos existentes. Não são poucos os que entendem a fé como um conjunto de conhecimentos mais ou menos estruturados acerca da ordem das coisas. E ainda há aqueles que compreendem a fé como um conjunto de normas e leis a serem cumpridas...
 
Parece realmente que muitos de nós esquecemos o real significado da palavra “fé”. O Papa Bento XVI, no moto próprio “Porta Fidei” assim se expressou: “Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé.” (Porta Fidei, 2). De fato, se perguntados sobre o que significa professar uma fé, muitos contemporâneos nossos responderiam com fatos, sentimentos, consequências, situações, momentos que brotam de sua fé, e não propriamente com o que seja realmente a fé em si.

“A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem.” (Hb 11,1). O autor da Carta aos Hebreus dedica diversas linhas de seu texto a explanar sobre o tema da fé. E inicia com a frase supra citada. Nela não encontramos propriamente uma definição aos moldes científicos, mas um testemunho. Aliás, todo o capítulo 11 deste livro apresenta a fé como uma experiência vivencial da qual se dá testemunho com palavras e obras.


Primeiramente, a carta aos Hebreus nos diz que a fé é uma certeza. Mas de que tipo de certeza o autor bíblico nos fala? Seria uma certeza científica? Seria uma certeza teórica? Seria um sentimento que dá segurança e estabilidade?

Antes de adentrarmos mais aprofundadamente no sentido profundo das palavras da Carta aos Hebreus, será preciso compreendermos um pouco mais acerca do que significa ter certeza. Diante das diversas informações que nos são passadas diariamente, existem diversos níveis de comprovação que nos garantem a certeza em relação a elas.  

A primeira delas é a certeza como ato de confiança em uma testemunha qualificada: trata-se do ato de dar crédito a uma palavra por causa de quem a falou. Explico-me. Acreditamos na história que nossos pais nos contaram acerca de nosso nascimento, acreditamos em uma notícia apresentada em um telejornal, acreditamos nos sentimentos positivos de nossos amigos em relação a nós. Este crer racional perpassa todas as nossas ações, todos os dias. Não podemos exigir comprovação de todas as informações que nos são comunicadas. Ficaríamos malucos. Apenas acreditamos na informação dada por causa da confiança na pessoa que no-la transmitiu.

Muitas pessoas consideram o ato de ter fé como se fosse este tipo de certeza. Creem em Deus por tradição familiar, porque sempre foi assim, porque o padre disse, porque a catequista disse... É verdade que a fé cristã depende das testemunhas que nos transmitiram seus conteúdos. Dependemos do testemunho daqueles que nos evangelizaram... Dependemos da fiança que depositamos nos autores das Sagradas Escrituras... Mas a fé não se reduz a isso. Não é desta certeza que fala a Carta aos Hebreus. De fato, percebemos cada vez mais em nossos dias que as pessoas têm rejeitado a Igreja justamente porque eram católicos apenas por tradição. Num passado não muito distante, todos se diziam católicos... Mas quantos realmente frequentavam nossas Igrejas? Quantos realmente apresentavam convicções acerca de sua fé? A fé contém tradição, implica no testemunho de pessoas qualificadas, mas não pode depender apenas disto, senão morre.

A segunda forma de se manifestar certeza é pela experimentação e comprovação científicas. No saber científico podemos ter uma certeza bastante plausível de que aquela informação, demonstrada por métodos rigorosamente observados, é verdadeira. Esses métodos rejeitam quase que completamente o testemunho de uma autoridade. Por meio de seu rigor acadêmico, nossa sociedade atual atinge níveis de conhecimento acerca da realidade nunca antes imaginados por nossos antepassados. Os avanços tecnológicos que brotam desse tipo de saber comprovam que é válido e salutar incentivar seu crescimento.

Mas seria a fé uma certeza científica? Evidentemente não. Não podemos comprovar os conteúdos da fé por meio de experimentação em laboratório. Isso é impossível. Percebemos as realidades divinas presentes em nosso meio, mas elas dizem respeito à outra ordem de coisas. Deus não pode ser medido, mesmo que possa ser tocado e sentido. Deus não cabe num tubo de ensaios, mesmo que percebamos seus sinais. Deus é o totalmente outro, intangível, mesmo que alcançável. Não podemos cair na tentação de querer comprovar ou refutar a existência de Deus por meio de cálculos matemáticos, formulações da física, química, psicologia, biologia... Ele está para além disso. Ter fé, portanto, difere também deste saber.

Em síntese: a fé não pode ser reduzida a um conjunto de afirmações teóricas, apesar de manifestar-se teoricamente... Ela não é sentimento, apesar de despertar sentimentos. Ela não é uma certeza racional, nem uma certeza sentimental, apesar de expressar-se racionalmente ou emocionalmente.

E mesmo assim a fé é uma certeza. De que tipo de certeza então trata a Carta aos Hebreus? Recorramos ao Evangelho! Nosso Senhor Jesus Cristo assim se expressou diversas vezes: “A tua fé te salvou”. Havia no coração de cada pessoa curada por Jesus um elemento anterior, que dava segurança de que não sairiam confundidos se depositassem sua esperança em Jesus Cristo. Esse elemento anterior dava a certeza de que em Jesus Cristo estava a verdadeira salvação. "Em verdade vos digo: se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá; e nada vos será impossível." (Mt 17,20). Fé, portanto, é uma segurança, baseada na experiência e que aponta para um futuro.

A experiência que baseia a fé não é científica; nem tampouco depende da afirmação de uma autoridade; ou de um sentimento emocional... A fé genuína é um encontro com a pessoa de Jesus Cristo. Um encontro que modifica tudo, altera tudo, transforma tudo. É uma experiência existencial que implica todo o ser e faz apostar tudo, deixar tudo para possuir este tesouro experimentado. Ela atinge toda a vida, isto é, não diz respeito a uma descoberta histórica apenas, mas na imersão em uma história que, mesmo tendo ocorrido a milhares de anos, não se esgotou e atinge o agora da pessoa, comprometendo todo o seu futuro, fazendo com que toda a vida dependa deste alguém para o qual tudo se entrega.

Mesmo não vendo, vemos... Mesmo não ouvindo, ouvimos... Mesmo não tocando, tocamos... Mesmo na ausência, testemunhamos a presença... Esta é a fé cristã! Não é deste mundo, mas está neste mundo! É um dom que brota do encontro de duas sedes: a sede humana de um sentido infinito e a sede de Deus que nos ama infinitamente. Não é uma dimensão da vida... É a própria VIDA que brota de nossos corações pela ação do Espírito de Deus!


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