Quaresma é tempo de descer para subir; de humilhar-se para ser elevado

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Estamos já no 4º Domingo da Quaresma. É o domingo que nos anuncia que a alegria da Ressurreição está chegando. Estamos no deserto quaresmal, mas a Igreja nos lembra que nossa salvação está próxima: Cristo Jesus. Ele é a alegria da nossa vida! Nenhum dos sofrimentos e dores de nossas vidas pode ser maior que a alegria de poder contar com a presença do Senhor, que nos alegra e comunica saber que a dor, o sofrimento, a morte, não são o fim de tudo.

A Quaresma nos leva a compreender que a graça é infinitamente maior que a desgraça dos nossos pecados; e que o único que pode impedir que a graça habite em você, é você mesmo. Uma vez que esteja fechado o coração para não mais acolher o amor e a presença de Jesus. O Evangelho desse domingo vai indicar que, para viver a graça da ressurreição, para a qual estamos caminhando em preparação, é preciso quebrar o orgulho e submeter-se ao Senhor. É preciso descer para subir. Para viver a alegria de Cristo é necessário descer. O Evangelho desse domingoassim se inicia: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem” (Jo 4,14). Esta citação refere-se a um acontecimento do Antigo Testamento, quando o povo de Israel foi castigado por meio de serpentes:

“No caminho o povo perdeu a paciência. Falou contra Deus e contra Moisés: ‘Por que nos fizeste subir do Egito para morrer nesse deserto? Pois não há nem pão, nem água; estamos enfastiados deste alimento de penúria’. Então o Senhor enviou contra o povo serpentes abrasadoras, cuja mordedura fez perecer muita gente em Israel. Veio o povo dizer a Moisés: ‘Pecamos ao falarmos contra o Senhor e contra ti. Intercede junto de Deus para que afaste de nós estas serpentes’. Moisés intercedeu pelo povo e o Senhor lhe respondeu: ‘Faze uma serpente abrasadora e coloca-a em uma haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar viverá’. Moisés, portanto, fez uma serpente de bronze e a colocou em uma haste; se alguém era mordido por uma serpente, contemplava a serpente de bronze e vivia.” (Nm 21,4-9).

É importante ver este texto, porque é profecia; é antecipação do sinal da redenção da humanidade no Crucificado. Jesus é levantado como um sinal de cura, de vida, em contraposição à morte e ao pecado. A serpente relembra o Gênesis e o pecado original, a desobediência e a perda da vida com Deus (Gn 3). No Filho do Homem acontecerá a restauração de tudo o que foi perdido no início, quando Adão e Eva desobedeceram sob a influência da serpente maligna. Nós, caídos pelo pecado e pela morte, nos assemelhamos aos que sofreram o veneno da serpente; com Cristo seremos reerguidos pela vitória na cruz, e nesta mesma cruz a serpente será derrotada.

Jesus, nosso Salvador e Senhor, será levantado “a fim de que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna” (Jo 3,15). A humanidade de Jesus é a primeira a ser levantada, erguida na Cruz e elevada na ressurreição e ascensão. A partir do maior mistério de nossa fé, o mistério pascal de Cristo, abre-se uma porta que “ninguém pode fechar” (cf. Ap 3,8). Inicia-se um tempo novo, uma vida nova de amizade com Deus, com essa porta aberta, com a redenção de Cristo. Abre-se novamente, de uma vez por todas, a possibilidade à Bem-Aventurança, à Vida Eterna. Como afirmou Jesus: “o Reino de Deus já está no meio de vós.” (Lc 17,21). Inaugura a restauração do mundo decaído por causa do pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Não merecemos; nunca mereceríamos tamanha graça, pois “o salário do pecado é a morte.” (Rm 6,23).

No entanto, “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Essa é a alegria! O amor de Deus, imerecido por nós, “foi derramado em nossos corações” (Rm 5,5), para nos limpar de nossos pecados e purificar de nossas faltas. Se estávamos mortos pela picada da serpente, por decidir pelo pecado. Agora, recebemos o remédio de Vida Eterna, que é o sangue de Cristo, Filho de Deus, a fim de decidir pela graça. Uma vez que a porta foi aberta, os pecados remidos, a vida restaurada, fica a questão e a resposta do pós-Pentecostes: “Irmãos, o que devemos fazer? Pedro lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para a remissão dos pecados. Então recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2,37-38).

Neste sentido, a porta aberta é o Batismo e o Espírito é quem nos levanta e nos eleva, para que subamos degrau por degrau, de graça em graça. Então clamemos o Batismo no Espírito para vivermos as graças do nosso Batismo sacramental! É preciso pedir o Espírito, a fim de que nosso coração se dobre e se humilhe, assim o Senhor nos levantará com Seu amor e perdão. Por isso, a Quaresma. É tempo de nos humilhar diante do Senhor, para que Cristo, nossa Páscoa, levante-nos com o poder de Seu Espírito. E humilhar-se é reconhecer-se pecador. Santo Agostinho compara isto com o ato de sentar:

“O homem se senta quando se humilha pela penitência; levanta-se, contudo, quando se ergue pela esperança da vida eterna. Por este motivo, diz outro salmo: ‘Erguei-vos após terdes estado sentados, vós que comeis o pão da dor’ (Sl 126,2). Os penitentes comem o pão da dor; eles cantam em outro salmo: ‘minhas lágrimas noite e dia se tornaram o meu pão’ (Sl 41,4). Que significa então: ‘Erguei-vos após terdes estado sentados’? Não vos exalteis, se não tiverdes sido humilhados. Muitos, de fato, querem erguer-se antes de terem estado sentados; querem parecer justos, antes de se confessarem pecadores.” (Santo Agostinho, Comentário aos Salmos. Salmos 100-150, Patrística, Paulus, 1998. p. 863-864).

Quem não se humilha, quem rejeita ao Cristo é como aqueles homens que “preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más. Pois quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que suas obras não sejam demonstradas como culpáveis. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus.” (Jo 3, 19b-21). A resposta de quem acolhe a salvação, entra pela porta e recebe o Espírito Santo é: “viver segundo o Espírito” (cf. Gl 5,25). Isto significa viver na verdade de Deus, viver na liberdade dos filhos de Deus; significa realizar obras feitas em Deus. A fé sem obras é morta (cf. Tg 2,17). Logo, o resultado da ação de Cristo e o Espírito em nossas vidas é o testemunho cristão. É a subida, é o levantar, é o soerguimento. Lembrando que para subir é preciso descer. Para subir, Jesus foi à nossa frente, já abriu o caminho e a porta para cada um de nós. E, como se não bastasse, ainda enviou o Espírito Santo para nos dar a força necessária para a subida.

Jesus, nosso Senhor, e a sua Igreja, nos convidam neste domingo, alegres, unidos aos santos, aos anjos e sob a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, a subirmos ao encontro do Pai, a fim de sermos saciados com a abundância de suas consolações (cf. Is 66,10-11).

 

Thaisson da Silva Santarém

Grupo de Oração São Miguel Arcanjo

Seminarista da Arquidiocese de Brasília


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