Toda mentira gera um mal, mesmo aquelas “sem importância”

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Desde muito tempo se comemora o dia da mentira, no dia primeiro de abril. Nesse dia, em especial, conta-se mentirinhas e faz-se todo tipo de enganação, com a desculpa de serem só brincadeiras. Com isso, acabamos por relativizar o significado da mentira e aceitamos como algo bom e proveitoso. Antes de fazer juízo de valor sobre esse dia comemorativo ou sobre o que fazer em relação a isto, é preciso ter claro na mente o que é a mentira e o que é a verdade.

Segundo Santo Agostinho, “a mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar”. A Sagrada Escritura nos apresenta que a mentira tem como pai o diabo (cf. Jo 8,44) e que é pecado contra o oitavo mandamento (“não levantarás falso testemunho”), pois ofende a relação fraterna e a relação com o Senhor. Estas fontes nos indicam que não existe “mentira boa” ou “mentirinha que não faz mal a ninguém”, pelo contrário, a mentira é condenável por si mesma. O ser humano tem a qualidade única de se comunicar, é capaz de revelar a verdade conhecida. Ao mentir, acaba por ferir sua humanidade e fere o outro em sua capacidade de conhecer. Como afirma Santo Tomás de Aquino “os homens não poderiam viver juntos se não tivessem confiança recíproca, quer dizer, se não manifestassem a verdade uns aos outros”.

Ao abrir os olhos à verdade, ao foco essencial da comunicação e da finalidade última do homem, percebe-se com clareza o que o Evangelho nos apresenta: Cristo é a verdade (cf. Jo 14,6). E para nós, cristãos, o viver na verdade é nossa meta, como nos afirma o Catecismo da Igreja Católica, no nº 2470: “o discípulo de Cristo aceita viver na verdade, isto é, na simplicidade de uma vida conforme o exemplo do Senhor, permanecendo em sua verdade. ‘Se dissermos que estamos em comunhão com Ele e andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade’(1Jo 1,6)”. Por isso, a verdade é também virtude, consistindo em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar, guardando-se da duplicidade, da dissimulação e da hipocrisia.

É errado mentir, mas como somos fracos e frágeis pecadores, o que fazer diante da queda neste pecado? Primeiro, a reconciliação com Deus através do sacramento da penitência. Depois, é preciso realizar uma reparação, pois se com a mentira uma outra pessoa foi difamada, por exemplo, faz-se necessária uma retratação particular ou pública. Logo, a luta contra a mentira envolve um combate, que se firma no amor a si mesmo (coerência de vida – verdade em si), no amor aos irmãos (sinceridade e reconciliação – verdade no outro) e no amor a Deus (reconhecimento de Deus como fonte da verdade em mim e no outro). Isso se dá na oração, no rejeitar o pecado e na decisão firme de fazer o que é certo.

Por fim, um conselho de um grande santo para que cada um de nós possa, nesta Quaresma, buscar uma sincera conversão: “Seja sincera tua linguagem, agradável, natural e fiel. Guarda-te de dobrez, artifícios e toda sorte de dissimulações, por que, embora não seja prudente dizer sempre a verdade, entretanto é sempre ilícito faltar à verdade. Acostuma-te a nunca mentir, nem de propósito nem por desculpa nem de outra forma qualquer, lembrando-te que Deus é o Deus da verdade” (São Francisco de Sales).

 

Thaisson da Silva Santarém

Seminarista da Arquidiocese de Brasília (DF)

Grupo de Oração São Miguel Arcanjo (Seminário)


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