Homilia completa de Dom Alberto Taveira na Missa de Encerramento do ENF 2018

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HOMILIA DA MISSA DE ENCERRAMENTO DO ENCONTRO NACIONAL DE FORMAÇÃO PARA COORDENADORES E MINISTÉRIOS DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA DO BRASIL

 

CACHOEIRA PAULISTA, 28 DE JANEIRO DE 2018

 

No dia do Senhor, na Ilha de Patmos, onde se encontrava preso, por causa da Palavra do Senhor, João entrou em êxtase, no Espírito Santo. Nós hoje estamos reunidos para celebrar a Eucaristia, no Domingo, dia do Senhor, convocados pela sua Palavra, chamados a estar fora de nós mesmos, centrados apenas Nele e em seu plano de amor! "Felizes os convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro!" Com realismo, devemos dizer “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada”, mas Ele nos convoca e nos faz sentir-nos em casa, na sua casa.

 

O Antigo Testamento conheceu e ofereceu ao Povo de Deus profetas, reis e sacerdotes, a funções de liderança, com a responsabilidade de manter viva a esperança no cumprimento das promessas de Deus. No confronto com outras nações, não se pode dizer que o povo escolhido tenha encontrado pleno sucesso em suas empresas, sendo até considerado pequeno e frágil diante dos poderes que com frequência o oprimiram. Faz parte de sua história tudo o que se pode pensar em dificuldades de relacionamento com as nações. Além disso, não foram raras as crises internas, brigas pelo poder, infidelidades constantes, próprias de um povo de cabeça dura!

 

Mesmo assim, um santo orgulho sustentou a sua história, a certeza de ter sido escolhido como sinal para as nações, coragem para anunciar a fé num Deus único e verdadeiro, busca de fidelidade ao Senhor. Um profeta, Elias, tornou-se ponto de referência para este ministério, caracterizado pela capacidade de ler os acontecimentos à luz da vontade de Deus. Moisés, cuja presença sintetiza toda a lei dada por Deus ao seu povo, é também chamado profeta (Cf. Dt 18,15-20). Exerceu uma função de liderança, conduzindo-o pelas vicissitudes do deserto, malgrado todas as reações negativas daqueles que caminhavam em busca da terra prometida. Certo de que seus dias caminhavam para o ocaso, Moisés anunciou um novo profeta semelhante a ele, em cuja boca estariam plenamente as palavras do Senhor.

 

No correr dos séculos, tudo evoluiu para expectativa do Messias, aquele que realizaria todas as promessas, vindo com autoridade e força. A figura de Jesus de Nazaré, como no-lo apresenta o início do Evangelho de São Marcos (Cf. Mc 1,14-28), encontra um povo admirado, estupefato diante de suas palavras e seu modo de agir. Anuncia a chegada do Reino de Deus, proclama a necessidade de conversão, mostra que nele os tempos se completaram. As páginas dos Evangelhos relatam prodígios e sinais, força diante dos elementos da natureza, cura das enfermidades e a morte, poder sobre a ação do demônio. Jesus é admirado pelos seus ensinamentos e pela decisão com que enfrenta o poder do maligno. Jesus é portador de uma doutrina nova, oferecida dom autoridade, diferente das desgastadas autoridades religiosas do tempo. “E sua fama se espalhou rapidamente por toda a região da Galileia” (Mc 1,28).

 

As qualidades e as misérias humanas acompanharam também a história da Igreja. Quantas vezes apanhamos por aceitar compromissos inadequados com grupos e estruturas de poder! Quanto precisamos nos converter para escolher o serviço, no modelo do lava-pés! Todas as responsabilidades confiadas aos cristãos deverão ter como ponto de referência o seu Senhor e Salvador.

 

E aqui estamos, Renovação Carismática Católica do Brasil, no encerramento de um Encontro Nacional de Formação. Olhando para nossa história, mas, mais do que tudo, olhando para Jesus, queremos ouvir o que o Espírito Santo nos diz! Também nós recebemos, sendo batizados, a missão profética, real e sacerdotal. Neste ano, dedicado na Igreja do Brasil à missão dos leigos, desejamos tomar posse de nossa missão. Como Jesus com seus primeiros discípulos, somos também chamados, consagrados e enviados.

 

Assumimos a tarefa de correios, estafetas, portadores da mensagem de salvação. E o Apóstolo São Paulo pode dizer-nos hoje: “Vós é que sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos. Todo o mundo sabe que sois uma carta de Cristo, redigida por nosso intermédio, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, os corações” (2 Cor 3,2-30). Ousamos tomar posse de duas tarefas, destinatários e portadores da mensagem! E os correios devem ser corredores, não podem perder tempo!

 

Com a mensagem enviada à Igreja de Éfeso, queremos voltar ao primeiro amor, o entusiasmo querigmático do encontro com Jesus e dirigir-nos a tantos que trabalham muito, mas se entregaram ao ativismo febril que não suscita frutos. Para tanto, arrependimento pelas nossas quedas e demoras, retorno às primeiras obras, no relacionamento com Deus, escolhendo o Senhor como tudo de nossas vidas, novo entusiasmo.

 

Passando por Esmirna, recolhamos no coração de Deus todas as pessoas que sofrem pelo Evangelho, a perseguição, calúnia, incompreensão, todas as provações, para convidar à fidelidade até à morte! A dor e a cruz são oportunidades únicas para o crescimento.

 

Em Pérgamo volta o convite ao arrependimento, uma Igreja sofrida, com a marca do martírio, mas acomodada. Mas justamente a pessoas que sofreram no meio de perseguições, fecundadas pelo sangue, é prometida a pedra branca da vitória e o maná! Somos portadores do convite a uma vida pura, sem mistura nem desvios!

 

Mesmo quando somos testemunhas de amor, fidelidade, paciência e persistência, podemos muitas vezes ficar conformados e acomodados, parecidos com a Comunidade de Tiatira. Quem sabe se se espalham entre nós o relaxamento na linguagem, uma adaptação aos costumes do mundo, imoralidades, um esfriamento a partir de dentro, a fuga de uma verdadeira mudança de vida! Nasça de novo em nós e em torno a nós uma nova radicalidade no seguimento de Jesus.

 

A Igreja de Sardes recebeu duras repreensões. Também nós somos convidados a experimentar a volta à Palavra, renovada vigilância, santidade de vida, sem nos conformarmos à mentalidade do mundo, buscando sempre a vontade de Deus!

 

Filadélfia nos recorda uma legião de homens e mulheres fiéis a Deus. Nela redescobrimos nossos Grupos de Oração, chamados a serem portas abertas e fortes para abrirem novos caminhos e novas portas para o Evangelho de Jesus! Agradecemos a Deus por tantas pessoas que foram colunas entre as quais os candelabros foram postos pelo Senhor. Recordamos agradecidos o seu testemunho!

 

Eis que estou à porta e bato! No final, chegamos ao tema do ano para a Renovação Carismática Católica. Ainda que ressoe de forma tão bonita em nosso coração, sabemos que a palavra dirigida à Comunidade de Laodicéia é um chamado forte à Conversão sincera, tão necessária para todos nós, sem exceção! Brote como uma torrente o convite à superação da vaidade, narcisismo, e autossuficiência. Não somos melhores do que os outros!  Compremos, com o preço do Sangue de Jesus, o ouro da intimidade com Deus, as vestes brancas da santidade e o colírio para ungir nossos olhos e estes se abram para a ação de Deus! Aceitar e fazer festa pela repreensão e pelas correções que nos vêm do Senhor.

 

Enfim, todas as Igrejas são convidadas ao Banquete. Ouçamos “Ficai de prontidão, com o cinto amarrado e as lâmpadas acesas. Sede como pessoas que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrir a porta, logo que ele chegar e bater. Felizes os servos que o Senhor encontrar acordados quando chegar. Em verdade, vos digo: ele mesmo vai arregaçar sua veste, os fará sentar à mesa e passará para servi-los” (Lc 12,35-37). Na festa da Eucaristia de domingo, mais uma vez o Senhor vai se oferecer a nós, na refeição pascal!

 

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Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará e Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL


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