Carta aos membros da Corrente de Graça (sobre o CHARIS Brasil)

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Belém – PA,
Fortaleza – CE,
Vitória – ES,
30 de abril de 2019.

 

Carta aos membros das mais diversas expressões que compõem a Corrente de Graça – Renovação Carismática Católica no Brasil

 

          Caríssimos irmãos e irmãs, graça e paz da parte do Ressuscitado!
Como já é do conhecimento de todos, desde o início de seu pontificado o Papa Francisco pediu que os dois organismos que serviam à Renovação Carismática Católica (RCC), especificamente o International Charismatic Renewal Services (ICCRS) e a Catholic Fraternity of Charismatic Covenant Communities e Fellowship (Catholic Fraternity), trabalhassem juntos até que se unissem em um único serviço eclesial. Essa foi a missão de comunhão e unidade que lhes foi confiada pela Igreja, que tem em vista não o término das atividades de ambos, mas um bem maior. Mesmo enfrentando algumas barreiras, muitos passos foram dados desde então; desde uma aproximação física, trabalhando em um mesmo lugar, até uma colaboração conjunta para a grande celebração dos 50 anos da RCC que aconteceu no Circo Máximo, em Roma. Posteriormente o Santo Padre erigiu uma associação pública de fiéis com o intuito de promover uma mais frutuosa comunhão entre as diversas expressões da corrente de graça que é a Renovação Carismática na Igreja Católica. Esta associação pública se denomina CHARIS – Serviço Internacional para a Renovação Carismática Católica, a quem foi atribuída de modo integral a tarefa de fomentar e aprofundar a comunhão entre estas mesmas expressões. Tal comunhão e unidade mais profundas, respeitando a sadia diversidade suscitada pelo Espírito Santo, estarão a serviço da ação evangelizadora da Igreja, que é e sempre será o seu foco. Sabemos que a multiplicidade de carismas está a serviço da unidade do Corpo de Cristo; nenhuma realidade eclesial particular basta a si mesma, pois como nos ensina o Apóstolo das nações, devemos viver segundo a verdade, no amor, para crescermos sob todos os aspectos em relação a Cristo, que é a Cabeça: “É dele que o corpo todo recebe coesão e harmonia, mediante toda sorte de articulações e, assim, realiza o seu crescimento, construindo-se no amor, graças à atuação devida de cada membro1 ”. Portanto, convidando-nos a uma mais próxima convivência e partilha de nossos dons, o Santo Padre nos ajudou a visibilizar melhor nossa catolicidade e nosso empenho comum na exaltação do Nome do único Senhor de todos, Jesus Cristo.
          Portanto, se desejamos realmente corresponder ao apelo do Santo Padre, compreendamos, antes de tudo, que não podemos nos contentar com uma aparência de comunhão, nem tampouco com um mero e burocrático acordo escrito ou ainda com iniciativas boas, mas individualizadas. Cremos, como afirma a Escritura e a Doutrina da Igreja, que a comunhão entre nós é um dom da Cruz de Jesus Cristo, pois Ele mesmo o pediu ao Pai: “Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste. Eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos, e o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste como amaste a mim”2 . Cabe a nós, portanto, acolher essa comunhão em espírito de fé e torná-la operosa em atitudes. Por isso, desde agora, louvamos a Deus por todas as iniciativas de aproximação e conhecimento mútuo que tem surgido em nosso meio, renovando o diálogo entre o movimento eclesial da Renovação Carismática Católica no Brasil, as Novas Comunidades e demais expressões de vida e serviço carismático. Exemplo disso foi a presença de representantes de diversas expressões carismáticas numa reunião havida em Lorena – SP no dia 08/01/2019, durante a Assembleia Ordinária do Conselho Nacional do movimento eclesial, além da constituição de uma Comissão formada por membros de diversas expressões carismáticas para discernir e organizar o CHARIS no Brasil, incluindo aí um dos pioneiros da RCC no Brasil, o Pe. Eduardo Dougherty, e a representante da América de Língua Portuguesa no CHARIS Internacional, a Sra. Gabriella da Rocha Dias.
          Cabe-nos, portanto, acolher com espírito orante, humilde e caridoso os passos que já foram e estão sendo adotados por esta Comissão para a concretização do CHARIS no Brasil. Outrossim, o trabalho da Comissão não exclui, evidentemente, a contribuição de ninguém; todos são bem-vindos para colaborar na concretização deste desejo do Santo Padre. Isto porque a comunhão invocada pelo Papa não é e nem pode ser, na Igreja, uma espécie de salvo-conduto para a anarquia (não reconhecimento ou desconsideração de toda e qualquer autoridade), bem como a liberdade associativa tutelada pelo Código de Direito Canônico jamais poderá estar desvinculada da exigência evangélica da comunhão e unidade que dirige os passos da Igreja3 ! Cabe-nos ressaltar que o direito da Igreja não impõe fórmulas a serem vividas, mas protege e fomenta realidades inspiradas pela divina vontade4 e que são, de modo oficial, acolhidas pelo Magistério Eclesiástico5 . Cremos, assim, que CHARIS Internacional e, no momento oportuno, CHARIS Brasil, não serão estruturas artificiais, mas expressões vivas e visíveis de um trabalho do Espírito Santo já em curso em nossos corações e entre nós, sendo certo que não se verifica em nenhuma das expressões carismáticas qualquer intenção de assumir a liderança do CHARIS ou qualquer espécie de governo ou ascendência, mas somente o desejo sincero de tornar ainda mais concreta essa comunhão em prol da evangelização. Esta é a visão: aprofundar a comunhão para amar mais e, com isso, evangelizar de modo mais eficaz!
          Como sabemos, o Santo Padre teve a iniciativa de nomear os membros que comporão o primeiro Serviço Internacional de Comunhão do CHARIS, sendo eles da RCC, da Catholic Fraternity e de outras expressões representativas no momento. A partir da Solenidade de Pentecostes, nesse ano, à 9 de junho, esses irmãos e irmãs estarão trabalhando juntos para concretizar o desejo do Papa em nível mundial. A partir desse largo horizonte, gradativamente tomarão forma as estruturas do CHARIS em nível local: por continentes e por nações. Esse será um trabalho gradativo, já iniciado no Brasil, mas não concluído, para que se preserve e promova aquilo que o Espírito já tem suscitado no meio do povo de Deus. Serão levados em consideração tanto o Estatuto do CHARIS internacional (que, por analogia, servirá de modelo para as estruturas locais, resguardadas as especificidades) quanto as realidades já existentes. Como instância de comunhão, CHARIS Internacional não obriga à revisão imediata dos estatutos das realidades locais. Assim, por exemplo, a atual configuração do Movimento denominado Renovação Carismática Católica do Brasil (seu conselho nacional, seus conselhos estaduais e diocesanos; sua nomenclatura; seus estatutos próprios) NÃO sofrerá qualquer alteração imediata. De igual modo, as Novas Comunidades continuarão dialogando através de uma Rede de Novas Comunidades, agora denominada “Amigos Fraternos”; as demais expressões igualmente manterão seus estatutos próprios. O discernimento, que será levado a cabo em diversas instâncias, manifestará a necessidade, ou não, de eventuais mudanças posteriormente. Portanto, CHARIS atuará como um aglutinador da comunhão entre estas diversas forças carismáticas de evangelização já existentes. Considerando que vivemos em um tempo de comunicação rápida, é comum que surjam, em alguns meios, notícias que eventualmente se antecipam aos fatos. Por isso, através desta Carta, desejamos tranquilizá-lo e encorajá-lo em seu trabalho evangelizador. Prossiga em direção ao alvo: evangelize! Ore conosco para que todos possamos colaborar com o desejo do Santo Padre. Não há nenhum grupo privilegiado em obter informações ou capaz de interpretar autorizadamente as intenções da mente ou do coração do Santo Padre em relação a CHARIS, a não ser o próprio CHARIS. Como dito, já temos uma representante da América de Língua Portuguesa no CHARIS internacional: a senhora Gabriella da Rocha Dias, membro da Comunidade Shalom. Ela está em contínua partilha de informações e visão tanto com o Conselho Nacional da Renovação Carismática Católica do Brasil quanto com a Rede de Novas Comunidades – duas das maiores expressões carismáticas existentes na Corrente de Graça, além de, como já informado, fazer parte da Comissão formada por membros de diversas expressões carismáticas para discernir e organizar o CHARIS no Brasil.
          Queremos envolver ainda mais nesse esforço de comunhão a Escola de Evangelização Santo André e diversos institutos religiosos de espiritualidade carismática, bem como ministérios específicos, meios de comunicação, etc., sabendo que nenhuma dessas realidades está sendo criada a partir de CHARIS; todas elas são realidades concretas da vida da Igreja no Brasil, acrisoladas por anos de vivência e submissão à autoridade eclesiástica. Como dissemos anteriormente, o direito eclesial não cria, a priori, algo que poderá existir, mas legitima e fomenta realidades já suscitadas pelo Espírito. As formas de vida carismática que já tem algum tipo de reconhecimento eclesial e que se identificam como fruto da corrente de graça, e que porventura ainda não estejam representadas nesse tempo de escuta, discernimento e partilha, serão certamente bem-vindas. Que ninguém se sinta de fora do CHARIS!
          Todos nós, irmãos e irmãs em Cristo Jesus, somos chamados a redescobrir a importância da obediência a Deus. Obediência essa que não é um sentimento intimista ou auto referencial, mas uma decisão pessoal de fazer parte de algo maior, de um corpo vivo; de se submeter voluntariamente àqueles que foram colocados como guias e pastores, pois reconhecemos que há um Primado que se fundamenta na Palavra de Deus. Uma decisão que nos leva a obedecer pois reconhecemos que ao lado da dimensão carismática da Igreja, está aquela hierárquica e que somente podemos obedecer a Deus se cremos que é o Espírito Santo que a conduz à verdade total6 e a unifica na comunhão e no ministério, enriquece-a e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e a adorna com os seus frutos7 . E mais ainda, o mesmo Espírito, pela força do Evangelho, rejuvenesce a Igreja e a renova continuamente e a leva à união perfeita com o seu Esposo, Cristo Jesus, Nosso Senhor8 .
É neste contexto que oramos a Deus, a fim de que o momento atual seja de leal escuta do Espírito e da Igreja. Lançamos um apelo aos irmãos e irmãs para que não sejam levadas em conta quaisquer notícias que aparentem antecipar os rumos do discernimento a respeito do CHARIS Brasil. Quem tem a visão histórica em vista daquilo que Deus quer é somente o Senhor Jesus, e aqueles a quem Ele escolheu e capacitou para conduzir a obra que Ele mesmo iniciou e Ele mesmo levará a cumprimento. Que esse itinerário de discernimento seja respeitado como o caminho natural que a autoridade eclesiástica reconhece para manter a comunhão entre todos nesse momento de transição. Recordemos sempre as palavras do Senhor: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer” (cf. Jo 15, 4-5)!
         Os senhores bispos diocesanos serão informados de modo oficial pela Santa Sé acerca da ereção do CHARIS Internacional. É possível que muitos se mostrem ansiosos em colher os frutos positivos que, cremos, serão resultado dessa ação do Santo Padre. Contudo, a posição atual de nossa recepção da iniciativa pontifícia no Brasil é essa descrita acima. Cremos que, por prudência e sabedoria, não devemos nos antecipar aos passos concretos que serão indicados e permitidos pelas instâncias privilegiadas de discernimento (CHARIS Internacional e, em última análise, o Pontifício Conselho para os Leigos, a Família e Vida). Como se pode notar pelo estatuto já publicado, não há a previsão de imediata criação de uma instância de CHARIS em nível diocesano, por exemplo. À medida que for se esclarecendo o caminho interpretativo dos estatutos de CHARIS Internacional e sua aplicabilidade para as realidades locais, estaremos prontos a responder melhor aos senhores bispos e a colaborar com eles em sua missão de fomentar e custodiar a corrente de graça (que, agora, é objeto dos cuidados de uma associação pública de fiéis de direito pontifício). 
          Como já dissemos, a realidade da comunhão é para hoje! Vivamos em nossas igrejas locais esse apelo do Santo Padre. Sejamos instrumentos para curar feridas abertas pela nossa deficiência em viver a unidade nos últimos anos. Sejamos criativos em evangelizar juntos, aproveitando os dons de todos. Que esse tempo de transição sirva, acima de tudo, para nos levar de uma vivência do afastamento mútuo em direção a uma vivência da colaboração na mesma messe para que o mundo creia!
          Que Nossa Senhora de Pentecostes interceda por nós!
          Em Cristo,
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1 cf. Ef 4,15b-16.
2 Jo 17,21.23.
3 Can. 212§1: Os fiéis, conscientes da própria responsabilidade, estão obrigados a aceitar com obediência cristã o que os sagrados Pastores, como representantes de Cristo, declaram como mestres da fé ou determinam como guias da Igreja.
4 Can. 298§1.
5 Can. 299§3.
6 cf. Jo 16,13.
7 cf. Ef 4, 11-12; 1 Cor 12,4; Gal 5,22.
8 Constituição Dogmática Lumen Gentium, 4.

 

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